terça-feira, 15 de janeiro de 2019

O 15 de Janeiro que mudou tudo.

Há quatro anos, nesse mesmo dia, a minha vida estava prestes a mudar.

Olá. Me chamo Jennifer, tenho 18 anos, moro em Minas Gerais e sou deficiente física. Hoje, dia 15 de Janeiro, se completam quatro anos de uma cirurgia que fiz; e para mim, essa é realmente uma data marcante. Pensando nisso, vou contar um pouco da minha trajetória até aqui.

Por conta de complicações na gravidez da minha mãe, nasci prematura e com uma paralisia cerebral chamada triplegia à esquerda -perda total das funções motoras dos membros inferiores e superiores. – Passei um tempo na incubadora e depois pude ir para casa.

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Os anos foram passando, eu fui crescendo e os médicos diziam que eu não poderia andar. Com 2 anos e meio, em busca de alguma solução,  fui a primeira vez ao hospital SARAH Kubitschek, em Belo Horizonte. Foi lá que a minha vida começou a mudar. Passei por diversos profissionais, exames... A partir daí o diagnóstico começou a ser revertido e eu comecei a andar. 

Apesar de finalmente andar, pisava na ponta do pé esquerdo, e para reverter isso precisei usar gesso  –algumas vezes - e um aparelho tipo uma bota mesmo. Eles ajudavam bastante, já que assim meu pé era forçado a ficar no chão. A grande questão é que meu pé sempre voltava a ficar como antes e por causa disso os médicos sabiam que seria preciso fazer algo, no entanto seria preciso esperar.

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Eu continuei crescendo, indo ao hospital algumas vezes ao ano, fiz uma cirurgia nas virilhas, continuei indo à APAE da cidade... Em fim: segui com a minha vida. Quando cheguei à adolescência, a equipe de médicos disse que para a minha cirurgia definitiva acontecer só era preciso que meu crescimento parasse. E quando acontecesse, era só eu esperar que me chamassem. Em 2015 isso aconteceu.

Passei por todos os exames e avaliações um tempo antes dela ser realizada, e aí, dia 14 de Janeiro daquele ano, fui internada para a realização da minha - tão sonhada – cirurgia para a correção de marcha. Ela aconteceu dia 15 de Janeiro de 2015, durou a manhã toda e foi até as 13h:30min. Fiquei uma semana no hospital, 43 dias de gesso em casa, semanas – sério, eu não lembro quantas foram - no hospital para a fisioterapia, e um tempão de cadeira de rodas, andador e muleta. Esse capítulo foi com certeza o mais louco que já vivi até aqui. 

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Hoje eu tenho maturidade o suficiente para reconhecer que tive sorte. Tive sorte por ter um pessoal tão incrível cuidando de mim, por ter suporte de família e amigos, por ter feito amigos tão maravilhosos. Hoje eu vejo que essa experiência me mudou, me fortaleceu. E eu não poderia ser mais grata, mais feliz. Percebo que sou privilegiada por conseguir lidar com a minha deficiência tão bem, afinal nem todos conseguem. Eu espero do fundo do meu coração que eles pelo menos tentem. 


Sabe, no período de internação eu ouvi uma mulher dizer pra minha mãe que deficientes nunca poderão ser cem por cento normais, fiquei bem brava e essa frase nunca mais saiu da minha cabeça. Fiquei triste na época, mas atualmente eu concordo com ela. Nós não nos encaixamos no que a sociedade considera padrão. Na maioria das vezes temos mais limitações do que os outros, e tudo bem. Mas tem um ponto bem importante que devia ser considerado: ter limitações não significa incapacidade. A deficiência tira coisas da gente, mas dá outras mais valiosas: a persistência, a dedicação, a paciência, a capacidade de adaptação. Essa última é a que eu acho mais incrível. 

Algumas vezes não conseguimos realizar tarefas do jeito convencional, então adaptamos à nossa realidade própria e assim conseguimos realizá-las. Se a gente quer e vê possibilidades, buscamos tentar. Pessoas ‘’ normais’’  por mais que vejam, não entendem. Gosto da nossa capacidade de ir contra a correnteza, é inspirador até mesmo para aqueles que vivenciam realidades parecidas. Espero que continuem indo contra a correnteza e dando o melhor de si, porque até mesmo pra nós, o céu não é o limite.

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